

O debate sobre as ameaças ambientais e a preocupação com a saúde humana nunca estiveram tão em pauta como agora. Estamos testemunhando grandes lideranças mundiais se pronunciando sobre a poluição atmosférica e o planeta correndo atrás de alternativas para mitigar os níveis de emissão de gases nocivos. Também temos observado iniciativas encontradas para nossa sobrevivência futura e, sobre isso, é preciso destacar a ação pioneira e inédita que está em curso na região oeste do estado de São Paulo.
Na unidade da Usina Cocal em Narandiba (SP) já está em operação uma planta dedicada à produção de biometano, composta por quatro grandes lagoas de fermentação e dois biodigestores instalados em uma área de 20 hectares. O biogás é resultado dos resíduos provenientes da própria usina: a vinhaça e a torta de filtro. Trata-se de um investimento de R$ 150 milhões e capacidade para produzir anualmente 33,5 milhões de Nm3 de biogás.
“Após o Proálcool e termos encontrado um combustível importante e alternativo ao petróleo, sempre se tentou achar um combustível para motores mais pesados. Se tentou álcool no diesel, etanol direto em motor em ciclo diesel, ciclo otto e sempre esbarrávamos na tecnologia e no custo-benefício”, relembra Paulo Zanetti, diretor superintendente da Cocal.
Zanetti conta que a dependência do combustível fóssil sempre foi algo incômodo para o setor sucroalcooleiro. “Estamos fazendo um produto maravilhoso, bom para o meio ambiente, que gera empregos, desenvolve a região, mas para isso utilizamos algo danoso para a saúde. Essa questão sempre ficou muito latente: como não ser dependente do diesel para produzir nosso negócio no trato, na colheita e no transporte da cana.”
COMO TUDO COMEÇOU
Zanetti conta que vinha acompanhando os trabalhos da Geo, companhia especializada na geração de energia renovável, com a possibilidade de produção do biogás a partir da vinhaça. O gargalo estava na logística da operação: como garantir a produção contínua e o armazenamento de um produto altamente volumoso (para cada 1 litro de etanol, são produzidos cerca de 13 litros de vinhaça) durante o ano todo.
“Fomos acompanhando os trabalhos da GEO até que, em 2017, eles apresentaram uma tecnologia que produzia biogás através de resíduos da indústria da cana e chegamos à torta de filtro: um subproduto da limpeza do caldo da cana, com riqueza semelhante ao esterco de boi, e que pode ser armazenada por até dois anos.”
ALTERNATIVA AO DIESEL
Ao conhecer o projeto piloto que a GEO desenvolvia na cidade de Tamboara (PR), a equipe da Cocal pôde verificar o desempenho e entender que seria plausível realizar a atividade em uma escala maior.
“Em seguida fomos ver o que pensavam as montadoras, onde obtivemos a maior motivação por parte da Scania: ‘Isso é queijo com goiabada’. A montadora trazia em seu planejamento estratégico a aposta no biometano como uma alternativa ao diesel no Brasil, em frotas dedicadas e operações confinadas. A opinião da Scania e da New Holland, do segmento de tratores, foi extremamente positiva e não deixou dúvidas.”

PROJETO INOVADOR
Em seguida, a Cocal foi procurada pela GasBrasiliano, concessionária responsável pela distribuição de gás natural canalizado no Noroeste Paulista, interessada em investir em gasoduto para levar o biogás produzido pela usina para a região de Presidente Prudente. O investimento foi acertado em R$ 130 milhões pela GasBrasiliano para construção do gasoduto e R$ 150 milhões pela Cocal para construção da planta industrial. A capacidade de produção é equivalente a 33 milhões de litros de diesel/ano.
Segundo o superintendente da Cocal, a planta industrial já está operando. A GasBrasiliano segue o cronograma para finalizar o gasoduto em junho de 2022. “Outra motivação foi que a partir do biogás podemos produzir energia elétrica, no modelo regulamentado no Brasil, chamado de geração distribuída. E outro elemento motivador foi o CBIO, um certificado que demonstra o que a usina está fazendo para reduzir a sua própria emissão de gases. Ao substituir o fertilizante químico pelo orgânico, e ao substituir o diesel pelo gás, melhoramos a nota e a remuneração desse título no mercado, esse foi mais um grande estímulo. Entendemos que se trata de um projeto inovador e grandioso. Estamos falando de um projeto isolado no mundo de produção de biometano, revela Paulo Zanetti.
TECNOLOGIA
Com a alta tecnologia que garante biogás o ano todo, a Cocal está colhendo outros frutos ao longo do processo. A vinhaça, por exemplo, que sempre foi utilizada para a fertirrigação, ao receber a ação das bactérias no processo de produção do biometano, fica com o PH ainda mais propício para melhorar o ambiente biológico do solo. O mesmo ocorre com a torta de filtro, que melhora ao passar pelos biodigestores.

“A tecnologia dos biodigestores verticais viabilizou o uso da torta e de outros produtos para, por exemplo, a possibilidade das usinas serem parte da solução para o lixo das cidades.”
GÁS PARA REFRIGERANTES
Se você acha que as novidades acabaram, veja essa: Para transformar o biogás em biometano, o produto precisa passar por mais um processo para a retirada do CO2. Esse é o gás carbônico utilizado nos refrigerantes, cervejas, alimentos e outros produtos.
Assim, a Cocal importou uma planta para produzir CO2 destinado a esse segmento. “Nosso CO2, nosso biometano, nosso biogás, tem rótulo verde. Estamos fechando contrato com empresas interessadas no CO2 e o biometano verde, melhorando a qualidade de vida e qualidade ambiental de suas empresas. Esse era um mercado que a gente não vislumbrava e que surgiu como consequência de se ter o produto”, salienta Zanetti.
O superintendente da Cocal adianta que a usina repetirá o mesmo projeto na unidade de Paraguaçu Paulista (SP), em 2022. “É a realização de um sonho e acima de tudo mais uma grande oportunidade que vem a partir da cana de açúcar para melhorar a qualidade de vida das pessoas, com emprego e uma forte contribuição com o meio ambiente, com o etanol e a energia elétrica do bagaço.”
PARCERIA COM A SCANIA
O diretor superintendente da Cocal destaca a presença da Scania em todo o projeto do biogás, com o caminhão teste movido a biometano, motores estacionários, além da presença em todo o programa da Cocal. “Esse também é o projeto piloto da Scania no Brasil com a Lots (empresa do Grupo Scania) fazendo os serviços de logística e já disseminando para outras empresas. Nós somos um campo de testes da Scania, graças ao relacionamento construído através da P. B. Lopes com a Cocal. É uma parceria que vai durar. Somos parceiros mesmo e de fato.”

Outro exemplo da parceria entre a montadora e a usina é o suporte técnico oferecido pela Scania junto ao grupo Etanol Carbono Zero, formado por representantes de usinas e liderança da Cocal. “A Scania não só nos motivou a entrar no negócio como também vem acompanhando todo o desenvolvimento técnico com uma equipe dedicada e temos um compromisso Scania e Cocal: da Scania amanhã vender serviços com caminhão autônomo, movido a biometano”, encerra Paulo Zanetti.
SAINDO NA FRENTE
Parceiro constante da Usina Cocal, o diretor da Rede P. B. Lopes, José Henrique de Souza Gomes, acentua a busca por novas matrizes energéticas que emitam menos poluentes na atmosfera. “Estamos falando de uma cadeia totalmente produtiva e viável economicamente. As empresas mais inteligentes estão buscando a solução e quem sair na frente vai ter uma oportunidade melhor. A Scania aposta nisso. Temos um caminho longo pela frente, mas já temos caminhões movidos a biogás. Neste momento, essa matriz é a mais assertiva, de resíduos a energia, e gera combustível limpo. Poluir menos é a solução para o planeta.”

PROTAGONISTA
Para Christopher Podgorski, presidente e CEO da Scania Latin America, a Scania escolheu um caminho de protagonismo na busca pela descarbonização dos sistemas de transporte e logística, que vem se concretizando desde 2016, quando foi anunciado o compromisso global rumo à jornada de sustentabilidade.

“A iniciativa com a Cocal, de utilizar caminhões movidos a biometano em uma operação real, comprova a viabilidade da tecnologia no país e reforça nossa jornada em busca de soluções sustentáveis de transporte. Enxergamos que a convivência entre diferentes fontes de combustível será fundamental, mas é crucial agir e acelerar essa transição através de parcerias como essa, para explorar o potencial do Brasil para o uso do Biometano em veículos pesados. No futuro, todas as tecnologias irão conviver em harmonia, não haverá uma única solução, mas entendemos que cada mercado terá uma vocação para um tipo de combustível desde que faça sentido, não apenas do ponto de vista ambiental, mas também dos pontos de vista financeiro e econômico para nossos clientes.”
Segundo Podgorski, no Brasil o biometano, também chamado de gás renovável, fará muito bem esse papel pelo grande potencial de tornar um passivo ambiental em um ativo energético precioso a partir do agronegócio. “Felicito a direção da Cocal pela iniciativa, pela visão futura de mitigação aos impactos ambientais e o uso racional dos já parcos recursos naturais de nosso planeta. Parabéns a todos os amigos da Cocal!”
PROCESSO DE PRODUÇÃO
